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Me aposentei! E agora?

Parece mesmo um contrassenso que uma data tão esperada pela maioria dos trabalhadores brasileiros se torne, pouco tempo depois de ser alcançada, um pesadelo para muitos.

Não é à toa que grande parte dos aposentados retornem ao trabalho, ou sequer parem de trabalhar após receberem a tão sonhada aposentadoria por tempo de serviço.

A verdade é que, dentre muitas razões e explicações legítimas para isso, duas delas me parecem ser, claramente, a maior causa para o retorno ao trabalho:

  1. O salário da aposentadoria não é suficiente:

A menos que você seja um servidor público, um político ou militar, o que não é o caso da esmagadora classe de aposentados hoje no Brasil, o salário de aposentado está muito longe de propiciar o mesmo padrão de vida alcançado durante a carreira corporativa. Uma pequena minoria consegue construir um bom “pé de meia” e pode desfrutar de uma vida de pescarias, regalias e passeios, até então impossíveis de serem realizados, devido aos compromissos normais de uma vida ativa na indústria.

O fato é que aquela reserva, preparada para cobrir os excessos e gastos inesperados, começa a ser corroída logo no início, dando a nítida impressão de que não vai durar para sempre. Na verdade, existe um período de descontaminação, quando não podemos manter a vida financeira anterior, mas ainda não conseguimos viver com a realidade da atual. É um período grande de adaptação e perigosamente crítico para as nossas finanças. É nesse momento que a maioria decide voltar ao trabalho, principalmente por estarem ainda com bastante energia e possuírem bons contatos e amizades construídas ao longo da carreira.

  1. Não consigo ficar parado, sem ter uma atividade:

Muitas pessoas tem uma vida intensa e estressante, com muito mais do que as 8 horas normais de um dia de trabalho. São exigidos ao máximo em suas responsabilidades e, não pouco frequentemente, chegam ao limite de suas capacidades. De repente, como que batessem de frente a um muro, vão do pico ao zero de um dia para o outro. Donos de uma forte rotina diária de acordar cedo, irem para o trabalho, pressão constante por resultados, são obrigados a conviverem com um vazio no horizonte e uma energia acumulada que só faz crescer.

Erroneamente, acreditaram que poderiam suprir seu tempo livre com coisas pontuais, com as quais passaram boa parte da vida pensando em fazer quando se aposentassem. Engano total! É uma espécie de abstinência que só pode ser suprida pela tão acostumada rotina e estresse associado, ou pelo efeito do tempo, aliado ao sofrimento pela ausência de todo esse esforço.

Enfim, essas duas causas perfeitamente licitas acabam por levar a grande maioria dos aposentados a retornarem ao trabalho ou permanecerem no seu emprego por mais tempo. O que fazer então?

Planejar a sua aposentadoria:

A primeira causa é, aparentemente, a mais fácil de ser resolvida, pois existem hoje uma grande quantidade de planos de aposentadoria oferecidos pelos bancos, fundos de pensão e pelas próprias empresas, preocupadas em assegurar a seus empregados uma vida financeira futura mais independente e tranquila, considerando a realidade dos baixos salários da aposentadoria regular. Pode ser, realmente, que isso resolva a primeira causa, mas fica faltando ainda solucionar a segunda causa.

No tocante à segunda causa, poucas pessoas se ocupam em planejar sua vida pós aposentadoria, no que se refere ao enorme tempo livre provocado pela falta de rotina diária. A grande maioria deixa para se ocupar desse problema quando ele verdadeiramente bate à sua porta. Nesse momento vem o desespero pela situação, podendo até incorrer em uma depressão, motivada pela falta de opção ou oportunidades imediatas.

A solução é começar a pensar nisso muito antes da efetiva aposentadoria. Se você quer aproveitar sua experiência dando aulas, planeje fazer um mestrado. Busque já ir fazendo contatos nas universidades e escolas próximas a você. Se pensa em oferecer consultorias, comece já definindo sua área de atuação, criando pontes, tudo isso enquanto ainda está na vida corporativa. É durante o período em que você ainda está atuante no mercado que o seu network é mais interessante e seus acessos estão ainda bem consistentes.

Diminuir suas expectativas:

Muitos acreditam, pelos seus relacionamentos atuais, que não terão problemas em obter algum tipo de vantagem, parcerias ou apoio, quando estiverem na condição de aposentados. Certamente, amizades bem construídas poderão ser decisivas no momento de buscarem uma nova oportunidade, mas a realidade é outra. Precisam entender que estarão fora do mercado e, inegavelmente, serão comparados aos novos entrantes, possuidores de energia e disposição ilimitadas, cheios das chamadas “novas ideias”.

Diminua suas expectativas, esteja preparado para trabalhos aquém das suas qualidades, salários inferiores ao que você acredita merecer e, principalmente, preparado para os “nãos” muitas vezes velados, mas reais.

Não se decepcione! Esteja preparado para esse tipo de enfrentamento, e faça das suas experiências e habilidades as suas maiores armas.

Carlos Alberto Lemes é natural de Jacareí, SP, tem 62 anos e é casado. Cristão convicto desde os 28 anos de idade, participa como membro atuante no Templo Batista Bíblico em Jacareí, SP, onde ministra regularmente, há mais de 20 anos, na Escola Dominical, o curso “Doutrinas Básicas da Vida Cristã”. Formado em Administração e pós-graduado em Gestão Empresarial. Tem Mestrado em Engenharia de Produção pela UNESP, além de uma experiência de 42 anos dedicados à indústria. Atua também, desde 2005, como professor universitário em cursos de Graduação e MBA, nas disciplinas de Administração e Logística.

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